Sunday, January 5, 2014

Por que muita gente não vai parar de usar o carro em São Paulo

Por que muita gente não vai parar de usar o carro em São Paulo

Recentemente o governo do prefeito Fernando Haddad, eleito há menos de um ano em São Paulo, resolveu criar centenas de faixas exclusivas para ônibus (e proibir táxis de transitar nelas). A despeito da necessidade de medidas do tipo, principalmente para desestimular o uso de carros, acreditamos que a mesma não obterá o alcance desejado em médio prazo, e temos dúvida em relação ao longo prazo.

Ressaltamos, inicialmente, que, historicamente, o governo brasileiro fez opção equivocada em relação ao transporte público. Houve opção histórica pelas estradas, ruas e avenidas em nosso país e, por consequência, ao carro e à indústria automobilística.

Já declarava o ex-presidente Washington Luís na década do século passada que “governar é construir estrada”.[1] E de fato, todo presidente do período republicano após Luís, inclusive Getúlio Vargas, que o depôs, demonstrou forte tendência a uma política desenvolvimentista voltada a construir estradas para a integração do país.[2] Ou nas palavras de alguns, “para cortar o país”. Destacamos, durante o período democrático do país (1946-1964), a criação da BR-116, rodovia que famosamente corta o país de norte a sul e a criação de diversas medidas governamentais para a construção de “estradas de penetração”, como o Fundo Rodoviário Nacional.

O crescimento das estradas, que se acelerou com o governo de Juscelino Kubistchek (1956-1961) e a instalação das grandes montadoras estrangeiras, foi ainda mais acelerado durante o Regime Militar (1964-1985). Durante o governo dos generais e marechais brasileiros, grande obras como a Transamazônica, a Ponte Rio-Niterói, a Transpantaneira (incompleta), a BR-101 (cortando o litoral sul do país até o litoral nordestino), foram iniciadas.

O objetivo daquela obras, seguindo a então vigente Doutrina de Segurança Nacional, organizada através do Plano de Integração Nacional (PIN), foi, como o próprio nome indica, integrar o país. Os militares utilizavam termos como "integrar para não entregar" e "uma terra sem homens para homens sem terra" para realçar a necessidade de se trazer desenvolvimento e poavamento às mais diversas regiões do país e, assim, não permitir que estas caíssem em mãos estrangeiras. Tanto no governo de JK, quanto dos militares, vários Planos Nacionais de Viação (PNVs) foram postos em prática.

É evidente que durante a história do Brasil, tanto como Império, quanto como República, houve investimento em outras formas de transporte como a navegação de cabotagem, o transporte ferroviário e aéreo. Entretanto, especialmente a partir do século XX, houve investimento predominante na indústria rodoviária e automobilística, com reflexos no presente. Podemos citar como principal reflexo o chamado “Custo Brasil”, termo utilizado para se referir ao custo da exportação de nossos produtos, que ocorre, em geral, por caminhão, por estradas e rodovias, estas muitas vezes mal sinalizadas e conservadas (algumas, em alguns grotões do país, inclusive não pavimentadas), adicionando o preço da gasolina ao frete.

Isso sem mencionar os altíssimos índices de acidentes e mortes que ocorrem em estradas brasileiras, principalmente em véspera de feriados, ceifando a vida de significativa parte de nossa população, em especial a juventude.[3]

E as cidades? Bem, as cidades refletem essa política de prevalência do veículo automotor ao invés do tranporte coletivo, associado a outro poderosíssimo grupo de impacto econômico e político: as empresas de construção civil.

Em diversas metrópoles brasileiras, o concreto passa pelo planejamento urbano, destruindo a harmonia entre o homem e a natureza, visando abrir mais espaço para ruas e avenidas. O investimento em transporte sobre trilhos nas cidades brasileiras (metrô e trem) sempre foi insuficiente e até hoje poucas capitais possuem transporte ferroviário, sempre de pouca extensão, apesar de em muitos casos, como São Paulo, de boa qualidade.

Para reforçarmos o argumento de prevalência do concreto sobre o espaço urbano, em São Paulo, podemos mencionar que o Rio Ipiranga, onde D. Pedro I proclamou nossa independência às suas margens, não existe mais, tendo sido soterrado por concreto para a construção de avenidas. Nesse mesmo sentido, as Marginais Pinheiros e Tietê não foram bem planejadas, não respeitando o espaço de vazão dos rios em época de chuva, ou inclusive suas curvas naturais (os rios Pinheiros e Tietê, por exemplo, foram em diversos trechos canalizados).

Desnecessário dizer o descaso com a preservação do patrimônio histórico nacional, ressaltado no fato que, independente de qualquer outra coisa, ainda somos um país com alto grau de pobreza e miséria, onde preocupações com o meio ambiente, a cultura e o patrimônio histórico, ainda podem ser vistas como secundárias, posto que muitos têm como preocupação essencial conseguir seu alimento diário.  O próprio planejamento da cidade se faz presente em detrimento do patrimônio histórico, visando a construção de novos prédios e negócios.

Portanto, após extensa digressão histórica e cultural, podemos concluir que os paulistanos simplemente não vão abandonar carro, porque durante décadas, praticamente um século, estão acostumados a utilizarem veículos automotores próprios. Nesse sentido, carro traz mais conforto: ainda que o indíviduo fique duas horas parado no trânsito, está dentro de seu veículo ouvindo música, com ar-condicionado, ao invés de ficar de pé num ônibus lotado sem ar-condicionado (por experiência podemos afirmar que muitos ônibus em São Paulo nem sequer ar-condicionado possuem, isso num país de clima tropical).

Carro, portanto, representa status. Afinal, se realmente adentramos num país de classe média nessa última década, onde muitos finalmente podem adquirir itens que não podiam adquirir antigamente, como um veículo automotor, onde a desigualdade supostamente diminuiu principalmente através do consumo – e não devido a reformas estruturais essenciais, como a reforma da educação e a reforma tributária – parece-nos normal que as pessoas desejem adquirir seu veículo automotor zero.

Sobretudo, quando o governo federal, cujo partido no poder é o mesmo do Senhor Prefeito, reduz ou zera o IPI para veículos automotores, medida visando justamente auxiliar a indústria automobilistíca nesses tempos de desaceleração da economia.

Parece-nos, no mínimo, políticas contraditórias, que se contrapõem e se anulam. Seria, em palavras chulas, como dar liberdade a um cachorro, permitindo-lhe correr por largos campos, mas dando-lhe um choque elétrico numa coleira com controle remoto cada vez que ele decida fazer isso. Não nos toca como producente.

Ademais, conforme argumentamos, carro próprio representa status e, mais ainda, exclusividade. Infelizmente vivemos num país e – no caso de São Paulo – numa cidade, que, a despeito de nunca ter havido tantos cidadãos adrentando na classe média nos últimos dez anos, ainda existe muita pobreza, miséria e crime. (Indagamos-nos: será que, afinal, tantos brasileiros entraram na classe média? E se entraram, será que crime não está associado com outros fatores, como valores éticos e familiares, uso de drogas e a falência dos órgãos do Poder Público em cumpriram seu papel, não predominantemente pobreza, como defendem alguns setores da esquerda?)

 Voltando ao argumento da criminalidade gritante – que muitas vezes é um fator psicólogico –, o sujeito não anda na rua, não pega metrô, ou ônibus, porque crê que algo vá acontecer a ele, ainda que naquele momento nada vá ocorrer, nem exista qualquer possibilidade disso (podemos, novamente, argumentar este ponto por experiência própria, já que, quebrando a barreira da terceira pessoa, este autor foi assaltado algumas vezes, em alguns casos quando estava dirigindo, em outras não, porém, atualmente não dirige e não deixa de andar na rua, pegar ônibus, metrô, etc., sempre – usando o jargão popular – com um olho nas costas).

Andar na rua, acima de tudo, significa exposição, muita exposicão. Especialmente se o sujeito é casado, tem filhos, uma carreira estabilizada, usa terno e gravata para trabalhar... Mais uma vez, por experiência própria, andar nas ruas das grandes cidades brasileiras, usar transporte púbico, em especial São Paulo (foco do nosso artigo), é todo dia estar sujeito a ser abordado por miseráveis, mendigos, pedintes, drogados, vendedores ambulantes (no caso de mulheres, em alguns casos, por homens fazendo cantadas ofensivas), e, infelizmente, em algumas ocasiões, por criminosos.

Por último, entendemos que o foco do Senhor Prefeito Fernando Haddad em criar mais faixas de ônibus exclusivas está equivocado.

Primeiro, porque se havia algo de positivo nelas, é que, ainda que se diminuissse o espaço para carros nestas podiam transitar táxis com passageiros. Muitos abandonavam os carros, pois tinham a opção de poder utilizar táxis nessas faixas. O que era vantajoso para todos, e diminuía o número de carros em circulação, ainda que não beneficiasse exclusivamente as empresas de ônibus (será que esse é o objetivo da prefeitura?). A prefeitura chegou a suspender a permissão para que taxistas com passageiros transitem nessas faixas e já ameacou não renová-la, o que atualmente está em estudo.[4]

Segundo, porque se há algum transporte público que tem que se investir é o metrô e transporte sobre trilhos (a exemplo do trem urbano). É caro, demorado, trabalhoso, não rende tantos votos (pois em geral é feito embaixo do solo), porém o único que pode eventualmente convencer os paulistanos a abandonaram seus veículos, a despeito do forte incentivo para se adquirir um veículo automotor e da situação de insegurança que vive a cidade e o país.

Ademais, o transporte ferroviário, em especial o metrô, já que gostamos de nos comparar com os chamados “países desenvolvidos”, é o mais adotado naqueles países. É neste que o prefeito de Nova Iorque, o Primeiro Ministro do Reino Unido, entre outros políticos, costumam transitar. Por que nosso prefeito não dá o exemplo e começa a ir todos os dias, ele, seus assessores e secretários, para o trabalho de metrô e ônibus? Não apenas um dia, por vinte minutos, cercado de seguranças e repórteres como recentemente veio a ocorrer, porém todos os dias, para ir e voltar do trabalho, para ir em todos os eventos oficiais da prefeitura.

E não vale cortar caminho e pegar táxis, pois estes não podem transitar na faixa exclusiva de ônibus, o que fará que custem uma fortuna, fatura paga, naturalmente, com o dinheiro do contribuinte paulistano.

Sites Consultados








[1] Interessante observar que a primeira rodovia pavimentada do Brasil, a Rio-Petrópolis, em 1928, ocorreu durante o Governo de Washington Luís (1926-1930)
[2] Durante o Governo Vargas (1930-1845), foi criado Departamento Nacional de Estradas de Rodagem (DNER), em 1937, que veio a ser substituído pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) em 2001.
[3] Apesar do número de acidentes em estradas esse ano, segundo as mais diversas publicações e índices terem caído, infelizmente, dia 22.12.2013, um domingo, próximo do Natal, acidentes de ônibus na Régis Bittencourt ceifou a vida de 16 pessoas, triste realidade que se repete todos os anos em nosso país, principalmente em época de festividades.

Saturday, February 23, 2013

O Boom do Mercado Imobiliário Brasileiro na Flórida


Tendo residido por dois anos em Miami, Flórida, este autor ficou impressionado com a quantidade de corretores imobiliários interessados em clientes brasileiros.

Em todo estabelecimento, em toda ocasião, basta apenas mencionar que é brasileiro que aparecem corretores perguntando-lhe se você tem dicas de clientes.

De fato, nunca o Brasil esteve tanto com imagem de potência no exterior, nunca tantos indivíduos e companhias estiveram com tanto interesse em fazer negócios com o Brasil apesar de velhas imagens do país de prostituição, futebol e carnaval.

Os Estados Unidos são um país voltado para o business e a despeito de eventual xenofobia crescente em diversas partes do mundo, o que interessa nos States é o dinheiro, o capital. Portanto, não importa a procedência do indivíduo, mas o que este pode trazer de valor agregado para a operação.

Atualmente a Flórida, como outras partes dos EUA, passa por um período de estagnação e que segura o Estado, acima de tudo, são os investimentos por diversos países da América Latina, sendo um dos carros-chefes o Brasil.

A economia da Flórida é uma economia significativa. Com uma população de 19 milhões de habitantes, a quarta nos EUA, e produto interno bruto de US$748 bilhões, também o quarto nos EUA, o Estado da Flórida é conhecido como sendo um lugar de lazer, de negócios com a América Latina – o centro financeiro Brickell em Miami, por exemplo, concentra o maior número de bancos internacionais no mundo[1]. Realmente a Flórida apresenta enorme potencial.

Do norte conservador ao sul latinizado, grande produtor de produtos agricolas como a laranja, a Flórida é particularmente conhecida por ser um microcosmo da América Latina, principalmente na região conhecida como South Florida.

Essa região que engloba West Palm Beach, Broward County, Boca Raton, Fort Lauderdale, Hollywood, os Florida Keys (Key Largo, Key West, etc.), Coral Gables e, é claro, o mais conhecido de todos, Miami-Dade County, é região conhecidíssima por seu pujante mercado imobiliário.

Com imóveis de todos os tipos, a South Florida (literalmente Flórida do Sul), hoje sobrevive em grande parte aos investimentos latino-americanos na região. A importância do Brasil em si é enorme, sendo o nosso país o maior parceiro comercial com a região, em valores que se aproximam de US$ 11 bilhões de dólares, de janeiro até setembro de 2012[2].

Nesse cenário há mais de 110 mil casas para venda no estado da Flórida[3], casas para todos os gostos. O mercado está fortemente num momento de compra. Parafraseando uma frase conhecida, nunca antes na história daquele país, o momento esteve tanto para compradores como agora.

É claro que há problemas no paraíso. Essa boa maré de compradores estrangeiros é limitada e não durará para sempre. Além disso, a despeito de sua beleza, a Flórida possui problemas como a falta de transporte público e as temporadas de furacões, que encarecem bastante a região.

O futuro da Flórida ainda há de ser observado, mas algo é seguro: qualquer que for, o Brasil, queira ou não queira, terá um grande papel.

Monday, October 8, 2012

“Intocáveis” e as Barreiras que Nos Separam


“Intocáveis” e as Barreiras que Nos Separam

Confesso que sempre gostei da França, então sou meio suspeito para falar de “Intocáveis”, porém o filme é maravilhoso por diversos motivos.

Sempre senti uma ânsia de conhecer mais pessoas, de saber suas histórias, vivências, medos e desejos. No Brasil vivemos muitas vezes numa barreira social, integrando-se com pessoas com históricos de vida similares ao nosso. É o chamado “apartheid social”, tão inteligentemente cunhado pelo senador Cristovam Buarque.

O filme trata desse desejo de transpor barreiras sociais. No filme, Philippe, um milionário paralitíco interpretado por François Cluzet é auxiliado no seu dia a dia por Driss, um jovem senegalês, da periferia (os banlieues) e com passagem na polícia interpretado magistralmente por Omar Sy.

Ele é o pior dos candidatos para ajudá-lo, desbocado, despreparado, autêntico. Seria tudo que se pensaria do contrário do personagem servil que normalmente se esperaria àquela posição e que representam todos os outros candidatos.

Ma é aí que está a beleza do filme: Philippe precisa de Driss. Para se sentir vivo, para se sentir amado, para se sentir livre daquela cambada de puxa sacos que o cercam.

Driss às vezes esquece e lhe passa o telefone, faz cantadas em sua secretária, enfrenta sua filha mimada, recusa a a dar lhe doces em certa ocasião por discordar de um valor pago por um quadro... Philippe apresenta-lhe ao mundo da alta cultura, da música clássica, da fina cozinha. Enquanto Driss traz toda a espontaniedade da periferia. Ambos fazem coisas extraordinárias juntos: saltam de paraglider, fumam maconha, viajam, vão ao prostíbulo. Disso surge uma bela amizade, por sinal baseada numa história real, sem qualquer grau de hierarquia entre um e outro.

Dizem que todos, do mendigo da Praça da Sé à presidente da República, estamos a seis graus de separação. O filme mostra isso. E quem sabe esses graus sejam mais próximos que imaginamos.

Wednesday, June 27, 2012


7 Lições Que Aprendi Morando na Flórida



1.       O importante é ter emprego com salário. Esse negócio de trabalhar a base de comissão, contingência, ou por hora é furada;

2.       A Flórida tem corretores imobiliários demais para isso dar dinheiro;

3.       Ficar fazendo networking para conseguir cliente tem limite. Na grande maioria das vezes não dá em nada, pois todos querem justamente o mesmo que você: clientes;

4.       A internet é uma furada. Ponha sua cara na rua;

5.       As pessoas te julgarão inicialmente pela sua aparência. Mantenha-se bem apessoado;

6.       A idade não significa nada. Há jovens conservadores e arrogantes e pessoas de mais idade liberais e sábias. O que importa é o indivíduo;
 
7.       Encontre um mentor. É importante encontrar alguém que te oriente nos caminhos da vida.

Saturday, August 20, 2011

O Caso DSK e a Espetacularização da Mídia

Muito se discutiu a chamada espetacularização da mídia na recente prisão do ex-diretor do Fundo Monetário Internacional, Domenique Strauss-Kahn.

Os limites do que um repórter deve ou não deve mostrar na cobertura da notícia, são tão abrangentes quanto a definição do que constitui a liberdade de imprensa em si.

Kahn foi mostrado em seu uniforme laranja, algemado, descabelado e confuso. Muito se especulou se realmente havia cometido o ato libidinoso, sem o consentimento da camareira do hotel Sofitel de Nova Iorque, onde estava hospedado, com uma clara tendência para acreditar no sim.

O papel da imprensa sempre foi desde os primórdios noticiar fatos, muitos desses moralmente repugnáveis involvendo figuras e autoridades públicas. O direito de escrever e publicar notícias ofensivas a autoridades veio a ser consolidado pela promulgação da Magna Carta de 1215, na Inglaterra, limitando os poderes absolutos do rei, como o de impor impostos sem a autorização do rei, e, principlamente, da criação do instituto do Habeas Corpus (em latim, literalmente, “dê-me o corpo”, medida este que limitava prisões sem causa e sem justificativa).

O HC, como é normalmente conhecido no jargão jurídico e popular, veio a ser consolidado em praticamente todos os Estados Democráticos. Triste são as memórias de nosso sofrido continente latino-americano, onde diversas ditaduras militares no contexto da Guerra Fria, subiram ao poder ceifando o Direito Fundamental de liberdade de expressão, intimando opositores, o congresso e a imprensa. Larga medida para alcançar tais objetivos, foi a suspensão do Habeas Corpus, inclusive no Brasil, ocasião que conhecido jornal publicava receitas de bolo e poesias de Camões no lugar de notícias censuradas pelo regime da ocasião.

A censura prévia, a suspensão de direitos fundamentais como o HC, e imposição de requisitos especiais para o funcionamento de órgãos da mídia – a exemplo da licença prévia, portanto revogável ao Deus dará pela ditadura da ocasião –, são medidas que forem historicamente utilizadas por governos ao redor do globo para conter notícias que lhe desagradavam. “Segurança nacional”, “interesse público”, “ordem interna”, constituiram-se jargões para conter os chamados “comunas“ da mídia como eram conhecidos pelo status quo da época (ou “burgueses”, “traidores da revolução”, no caso dos regimes soviéticos).

Em geral, no balanço entre o que mídia deve ou não deve mostrar, no que constitui-se matéria de interesse da sociedade, fez-se aceito a discrição em relação a questões de foro íntimo das autoridades. É conhecido é notável e fascinação e repugnação que a vida privada de seus líderes gera ao povo norte-americano. Nos EUA, nação de forte tradição puritana e protestante, elege-se não apenas o líder, mas o pai, o marido, o homem de família. Diversos políticos tiverem carreiras terminadas ou severamente prejudicadas pela revelação de casos extraconjuguais.

O próprio ex-presidente Bill Clinton a despeito de seus sucessos na condução da economia, veio quase a ser impeacheado por um caso com uma estagiária. Discute-se se o ato do Congresso deveu-se à infidelidade em si, ou ao fato do presidente, o comandamente em chefe, ter mentido à nação ao negar envolvimentos inapropriados com a senhora Monica Lewinsky.

O senhor Dominique Strauss-Kahn é estrangeiro, francês. Era hóspede de luxo numa nação estrangeira. Veio de um país com tradição muito mais liberal de respeito à privacidade de autoridades. Infelizmente, a despeito do seu brilhantismo como presidente do Fundo Monetário Internacional, a conduta que foi acusado de cometer é criminosa em qualquer estado democrático.

Não cabe a nós dizer o que deve ser considerado notícia e o que deve ser considerado sensacionalismo num país estrangeiro, ou mesmo em relação à conduta de nossos próprios compatriotas.  A imprensa é essencial em estados democráticos, e fundamental em estados não-democráticos, onde outras instituições não funcionam em sua plenitude. Mas o respeito à figura do indíviduo à sua honra e dignidade, sem desconsiderar a proteção dos mais fracos (como era o caso da camareira, imigrante africana) hão de ser balanceados para o alcance de uma cobertura isenta dos fatos.

Friday, April 1, 2011

O fim de um sonho (e quem sabe o começo de um pesadelo)


Como muitos me senti entristecido pela decisão do Supremo Tribunal Federal (STF/ Supremo/ Corte Maior) em adiar a aplicação da Ficha Limpa para 2012. Minha primeira reação, como brasileiro, foi sentir que a decisão atendia interesses mais políticos, do que de justiça e que poderia apenas ser explicada por “interesses escusos”
Afinal uma lei que permitiria que figurinhas carimbadas da política – cujo nome não vale a pena repetir – com condenações em segunda instância – o que na minha interpretação seria suficiente para presumir-se a culpabildade e dar-se início ao cumprimento da pena (visto o princípio do duplo grau de jurisdição) – a não se candidatarem, apenas poderia ser bem-vinda.
Ao adiar a aplicação da lei para 2012, o STF criou uma brecha perigosa e corre-se o risco de termos mais do mesmo nessa legislatura que começou em 2011. O Congresso Nacional (e Assembléias Legislativas) que pareciam mais limpos – com tristes exceções – serão novamente inundado por políticos corruptos de toda estirpe (os que os haviam substituído perderão seu mandato voltando à sua condição de suplentes). O mais perigoso, além da volta dos mesmos, da mesma robalheira, cinismo e canalhice de sempre, é a possibilidade da lei ser revogada no futuro próximo por candidatos antes barrados, que agoram se beneficiam de sua não aplicação (isso, naturalmente, se eles formarem quórum suficiente), ou mesmo da lei ser declarada inconstuticional em sua essência pelo Supremo (não acredito que eles fariam isso, mas hoje em dia a gente não dúvida de nada).
Entretanto a decisão de nossa corte maior, que diga-se de passagem se dividiu completamente também traz um certa segurança jurídico (o caso antes em 5 votos a favor da aplicação da lei para as eleições de 2010, contra 5 votos contra, terminou em 6 votos contra a aplicação para 2010 e 5 votos a favor, com a entrada no novo Ministro Luiz Fux). O voto de minerva na questão, Ministro Luiz Fux, não é nenhum inexperiente e sim um jurista preparado, extremamente capaz e reconhecido, que inclusive fez parte da comissão responsável pela elaboração do projeto do novo Código de Processo Civil.
O artigo 16 da Constituição Federal preve que “[a] lei que alterar o processo eleitoral entrará em vigor na data de sua publicação, não se aplicando à eleição que ocorra até um ano da data de sua vigência”. Esse artigo trazido pela Emenda Constitutional de 1993, prevendo o princípio da anteoridade, – portanto vários anos antes da Ficha Limpa, que não era nem um projeto na cabeça das pessoas – visa dar maior segurança jurídica ao processo eleitoral e impedir mudanças abuptras no jogo democrático.
Pode parecer uma tecnicalidade inútil, uma justificativa suspeita para agir-se contra uma lei de forte apoio popular e de grandes órgãos da mídia. Infelizmente não é. A regra do Direito não admite excepção e a segurança jurídica se faz necessária ao sistema brasileiro. Torna-o mais previsível e confiável. A Lei Complementar nº 135 (Lei Ficha Limpa) foi aprovada em junho de 2010, sendo as eleições em outubro do mesmo ano. Portanto o período de um ano não se transcorreu.
Agir contra um artigo expresso da constituição é negar o sistema. Muitos irão argumentar que há leis, decisões judiciais e decretos executivos e legislativos que vão contra a constituição todo santo dia. De fato eles existem. Entretanto,quando o fazem, fazem em relação a artigos constitucionais que implicam idéias vagas, diretrizes e princípios norteadores (como o princípio da moralidade na administração pública, por exemplo).
Entretanto, um artigo constitucional que expresse uma idéia clara é prontamente aplicável como por exemplo o artigo 37, III, da Constituição Federal, ao prever o prazo de validade de dois anos para concursos públicos e não gera muito espaço para interpretações.
Essas previsões geram uma certeza no sistema e nos fazem crer que o sistema é mais confiável para bem ou para o mal. Entretanto, devido ao altíssimo nível de corrupção no Brasil, a sensação que fica é de impunidade, de conchavo, de camaradismo...
Se fosse ministro teria muita dúvida em como votar nessa questão: ir a favor de dispositivo expresso da Constituição – que apesar de imperfeita é a única que temos e é a lei suprema da nação –,  ou votar com suas convições e apoiar uma decisão que no sentido estrito do termo é inconstitucional, mas justificável – o que é supostamente é proibido ao juiz fazer, pois deve votar de acordo com a lei, não suas convicções.
No final, o que demonstra mais uma vez a decisão de nosso Supremo Tribunal é que cabe à aquela corte decidir o que é constitucional, ou não, ainda que haja uma situação onde algo é claramente inconstitucional, ou claramente constitucional.

Monday, February 28, 2011

Revista Época - Debate Sobre Segurança Pública


*Debate Realizado em Maio de de 2010

Para quem se interesse pelo tema, vale a pena ler o resumo que fiz sobre o debate sobre segurança pública promovido pela Revista Época entre Denis Mizne, presidente do Instituto Sou da Paz, Luiz Eduardo Soares, ex-Secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro e Gilmar Mendes, Ministro do Supremo Tribunal Federal.


Denis Mizne – Instituto Sou da Paz

- Houveram avanços, mas os dados ainda são alarmantes;
- 35.000 mortes anuais por arma de fogo;
- Demasiada centralização do problema na esfera estadual;
- Capacidade baixa de investimento dos estados;
- Diversas ações centralizadas e não integradas de municípios;
Ano 2000 – Criação do Fundo Nacional de Segurança Pública;
- Ação política – necessidade de liderança política. Todos os grandes movimentos de combate ao crime tiverem um líder político forte. Ex: Giuliani em Nova Iorque;
- Necessidade de maior participação do governo federal, em, por exemplo: controle de fronteiras, controle do tráfico de armas, controle do tráfico de droga;
- Falta controle de fronteira. Não há guarda costeira, há três scanners para inspecionar toda a mercadoria que entra no território nacional;
- Há maior necessidade de treinamento da força policial estadual. É importante a participação do governo federal;
- Falta coordenação entre os órgãos de segurança;
- Necessidade de subsidiar os estados com informação. Necessidade de prevenção; Necessidade de reavaliar a questão prisional no Brasil. Prende-se muito, mas a criminalidade não diminui;
- Governo Federal: Criação do Ministério da Segurança. Governo deve ser um ator central.

Luiz Eduardo Soares – Antropólogo e ex-Secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro. Co-autor de Elite da Tropa, que serviu de base para o filme Tropa de Elite

- A Segurança pública é questão de Estado;
- A segurança pública barra em conflitos entre os estados;
- É uma questão delicada, sofisticada. Deve-se usar a inteligência, não a força bruta;
- A sociedade funciona com expectativas;
- A confiança pública é essencial para justiça e ordem pública;
- Tema multifatorial;
- Políticas intersetoriais. Necessidade de agregação. De políticas sociais;
- Modelo policial herdado da ditadura (mescla entre esquerda e a direita);
- Para a esquerda segurança pública era um tema sujo, o que importava são as questões sociais;
- Polícia negligenciada, deixada de lado, com um aparato e mentalidade da Ditadura;
- Ocorre um genocídio em relações aos jovens, pobres e afro-descendentes de periferia;
- Polícia violenta, salários baixos;
- Falência das instituições. Instituições congeladas.
- Problema da maturação do projeto de segurança pública. Não há tempo de maturação suficiente, visto que o político pensa na eleição daqui há quatro anos. Necessidade de projetos de longo prazo;
- Projetos que esbarram em brigas políticas;
- Necessidade de captação, treinamento, unificação de política em relação às policias (Unificação de salários, de tempo de treinamento, etc.);
- Necessidade de mudança do artigo 144 da CF para lhe dar mais clareza e definir o papel da União Federal no tema;

Gilmar Mendes – Ministro da STF

- Conselho Nacional de Justiça - CNJ (do qual o ministro foi presidente) – aproximação com o tema;
 - Mutirões carcerários para corrigir distorções (preso provisoriamente há quatorze anos no Ceará, etc...);
Vários falhas no sistema:
- Inquéritos não-resolvidos (4 mil só no Alagoas);
- Inquéritos de capa preta – viciados, parciais;
- Mandatos judiciais não-cumpridos;
- Falta de políticas para a reinserção do ex-detento à comunidade;
- Falta de assistência jurídica á população carente;
- Necessidade de articulação das políticas públicas;
- Necessidade de reforçar a justiça criminal;
- Importância dos conselhos nacionais;

Denis Mizne

- Pouco trabalho investigatório;
- Isolamento por si só não resolve;
- Necessidade de agir com racionalidade;
- Não se resolve ao aumentar as penas, mas sim ao dar mais eficácia às punições;

Luiz Eduardo Soares

- Não há mais momento para discussões. É o momento de agir;
- Ciclo eleitor acaba trazendo refluxo. Poucos candidatos realmente focados na segurança pública;
- Processo longo e doloroso;
- Plano nacional – Pacto para a paz;
- Conjunto de medidas;
- Perigo da privatização da segurança pública. Formação de milícias;
- Papel dele durante o governo federal (fez parte do primeiro Governo Lula). Abandono do governo federal do plano de segurança. Já havia obtido assinatura de todos os governadores;

Gilmar Mendes

- O texto constitucional dá espaços para reformas;
- Questão da autonomia do judiciário e do Ministério Público. CNJ e Conselho do Ministério Público vem cumprido bem esse papel (em resposta a uma afirmação do Denis, que órgão judiciário era uma ilha sem integração);
- Definir o papel da União;
- Paradigma da autonomia federativa;
- Dificuldade de repasses entre as entidades da federação;

Perguntas interessantes:

Criação de Ministério da Segurança Pública – proposta de José Serra.
Resposta geral: pode ser bom, mas tudo depende se as verbas forem bem direcionadas, se o ministério tiver uma função clara, etc...

Ações da Polícia Federal
Gilmar Mendes mencionou que não é contra a PF investigar, mas durante grande parte do Governo Lula eles fizerem ações carnavalescas muitas vezes sem base, onde inocentes foram presos, expostos ao vexame público. Não havia nenhum controle político-institucional.
Ex: (Essa achei graça). Foi pedido a decretação de prisão de um tipo de origem libanesa, pois supostamente ele mantinha conta offshore no Afeganistão.
Luiz Eduardo Soares relembrou que as ações espetaculares da PF começaram quando o Plano Nacional de Segurança Nacional foi descartado, portanto o governo queria distrair do problema.